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Museu Antropológico do RS recebe artesãos Mbya-Guarani e debate tratamento de acervo indígena

Iniciativa visa identificar modos de conservação e terá curadoria conjunta de exposição no Museu das Missões

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Grande grupo de pessoas posa para foto em frente ao prédio da Fabico/UFRGS. Em frente ao grupo há duas mesas com artesanato indígena.
Painel promoveu diálogo entre museólogos e pesquisadores sobre patrimônio e acervo Mbya Guarani - Foto: Carlos Hammes/Ascom Sedac
Por Carlos Hammes/Ascom Sedac

Como deve ser administrado o acervo de peças que guardam saberes transmitidos há séculos, de geração em geração? Quais dos objetos que preservam a memória de comunidades originárias devem integrar o acervo que representa a cultura do Rio Grande do Sul? Essas foram algumas das perguntas dos pesquisadores do Museu Antropológico do Estado (MARS), instituição da Secretaria da Cultura (Sedac), para artesãos e artistas Mbya-Guarani em encontro promovido nesta semana, em Porto Alegre. Além de debater formas de salvaguarda do patrimônio indígena, a iniciativa vai viabilizar a curadoria conjunta para uma exposição do acervo do MARS no Museu das Missões, em São Miguel das Missões.

Diversas pessoas em torno de uma mesa de reuniões. Sobre a mesa, estão cestarias e esculturas em madeira.
Salvaguarda do patrimônio e modos de valorização da cultura indígena foram tema de conversa durante evento do MARS - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac

Na manhã da terça-feira (14/4), um grupo de artesãos e artistas indígenas foi recebido para uma conversa sobre o acervo do Museu Antropológico, na sede da instituição. Peças doadas, principalmente a partir do programa de apoio à população indígena, do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), passam por processo de catalogação no Museu. Os pesquisadores buscam identificar formas de conservação das peças e de difusão da cultura Guarani, e a reunião abre caminho para um trabalho conjunto de valorização da arte e da história que vem das aldeias.

Laercio Karaí está sentado à mesa diante de um microfone.
Professor Laércio Karaí falou sobre a importância do diálogo e da inclusão para valorização do patrimônio Guarani - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac
De acordo com o professor de história, Laércio Karaí, liderança comunitária na aldeia Nhe’engatu, de Viamão, a iniciativa “é um movimento importante no momento em que se pensa junto, numa perspectiva de inclusão. Esses materiais, ainda que se produza atualmente, são peças que há muito são produzidas e têm importância histórica e social para os Guarani”. O professor também explicou que as peças representam o modo de vida e as formas de subsistência das comunidades. “Quando a gente fala em cesto, a gente fala no trabalho da mulher, do grafismo, do material que usamos, a gente vai desmembrando o universo Guarani, o valor da arte em si, mas também o valor simbólico que essa arte tem”, declarou. 

Com quase 50 anos, o MARS possui vasto acervo que representa as culturas do Rio Grande do Sul. “Queremos começar a pensar onde esses objetos deveriam estar. São peças que carregam simbolismo, a memória de um povo, carregam história, é um trabalho importante”, disse a historiadora do Museu, Juliana Medeiros, uma das coordenadoras do projeto. 

No turno da tarde, um painel intitulado “Os Mbya-Guarani e o Museu: diálogos sobre artesanato e patrimônio” integrou profissionais e pesquisadores da museologia e artesãs. O encontro, realizado em parceria com o curso de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ocorreu no auditório da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico).

Elsa Chamorro Benites posa para foto atrás de mesa com artesanato.
Artesã Elsa Chamorro Benites é reconhecida pelo trabalho com cestarias e acessórios na região das Missões - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac
A atividade abordou temas como a valorização do trabalho e da arte Guarani, o registro da autoria das peças e as formas de produção e comercialização. A história e a tradição da arte indígena também foram abordadas em questões sobre os materiais e técnicas aplicadas historicamente e os impactos dos aspectos territoriais nas práticas atuais, como a escassez de materiais e a desapropriação de áreas tradicionais. “Hoje, praticamente todas as aldeias fazem artesanato para vender e buscar o sustento das famílias, mas ainda existe muita dificuldade de ver esse trabalho como arte”, contou a artesã Elsa Chamorro Benites, da aldeia Tekoa Koenju, de São Miguel das Missões. Ela também testemunhou a dificuldade e o custo do acesso a matérias primas como o bambu utilizado nas cestarias, que não é mais abundante nas terras indígenas.

Auditório em que três mulheres indígenas estão diante de uma plateia sentada.
Painel enfatizou modos de produção, preservação e difusão dos saberes Mbya Guarani do Rio Grande do Sul - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac

Patrimônio cultural Guarani

Outro painel encerrou a tarde de trabalho debatendo o patrimônio cultural Guarani. A mesa composta por professores de diferentes aldeias Guarani problematizou aspectos como o conceito de patrimônio para as comunidades tradicionais e a necessidade de salvaguarda de acervos dessas comunidades. “Cada povo, cada etnia, tem o seu conceito do que é considerado patrimônio. Essa questão até hoje ainda fica em disputa, quem tem mais voz diz o que é patrimônio para outra pessoa”, ressaltou Laércio Karaí.

Professora da Aldeia Tekoa Koenju, de São Miguel das Missões, Patrícia Ferreira falou sobre os 400 Anos das Missões, efeméride celebrada em 2026. Ela questionou a relação entre o reconhecimento do patrimônio e a efetiva valorização das populações indígenas. “Aquela tava [aldeia onde vivem os guarani] - em referência ao Sítio Arqueológico - onde aconteceu a história de catequização dos Guarani, foi reconhecida como patrimônio cultural, mas a partir disso, o que de fato está sendo feito para valorizar o povo Guarani? Eu vejo muita valorização da história que aconteceu com nosso povo, mas não está se valorizando o que estamos vivendo agora. Qual é a valorização real desse povo hoje?”, disse.

Ela afirmou que a discussão sobre o que é patrimônio é necessária e destacou que, para a cultura indígena, patrimônio “não são apenas objetos, são histórias contadas a partir desses objetos. A língua Guarani é um patrimônio, a fala dos mais velhos, os conselhos dos mais velhos é um patrimônio pra mim, que vai guiar nossos passos. Cada coisa que vem do povo Guarani é, pra mim, patrimônio. Toda e qualquer peça que faz parte da nossa vida, da nossa cultura, é o nosso patrimônio”, declarou Patrícia. 

A Sedac é responsável pelo reconhecimento e salvaguarda do patrimônio cultural do Estado e o primeiro bem imaterial reconhecido pelo Executivo foi o Sistema Cultural e Socioambiental da Erva-Mate Tradicional. O registro dos saberes ancestrais foi oficializado em junho de 2023, depois de um amplo estudo que contou com a participação de indígenas Mbyá-Guarani de diferentes regiões do Estado. Também no âmbito das comemorações pelos 400 Anos das Missões Jesuíticas Guaranis, o Estado firmou convênio com a Unisinos para a realização de um programa de educação patrimonial que prevê, entre outras ações, identificar e descrever o inventário do patrimônio imaterial dos povos indígenas.

Arte Guarani no Margs

Semi círculo de pessoas na reserva técnica do Margs, espaço com estruturas de metal que guardam obras de arte do acervo do museu.
Reserva técnica do Margs mantém acervo de arte indígena - Foto: Natália de Moraes/Ascom Margs
Na quarta-feira (15/4), o grupo de artesãos e artistas Mbya-Guarani visitou a reserva técnica do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), e acompanhou a montagem da exposição “José Verá - Mbya Nhenhandu Reko: a essência da sabedoria Guaranbi”, que abre ao público neste sábado (18/4). Durante a visita às instalações do Museu, os convidados do MARS conheceram o modelo de guarda e conservação do acervo, que inclui obras de Verá adquiridas em 2024

Juliana também anunciou que a parceria com as comunidades indígenas vai viabilizar uma exposição no Museu das Missões, em São Miguel das Missões. Prevista para o mês de julho, a mostra terá curadoria colaborativa da equipe do MARS e dos artistas indígenas e exibirá uma seleção de peças representativas da cultura Guarani. O trabalho de curadoria iniciou na tarde de ontem, com uma primeira reunião em que o grupo iniciou a seleção de peças. 

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