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Encontro Anual das Bibliotecas Públicas e Comunitárias do RS reúne profissionais e debate o futuro das instituições de leitura

Evento reuniu bibliotecários, gestores e escritores em três dias de palestras, oficinas e atividades culturais

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Fotografia horizontal de um palco de teatro com piso de madeira e cortinas pretas ao fundo, durante o 3º Encontro Anual das Bibliotecas Públicas e Comunitárias do RS. À esquerda, um homem de óculos, jaqueta escura sobre camiseta clara e tênis, fala ao microfone em um púlpito de acrílico transparente. Ao fundo, um telão azul-claro exibe o logotipo do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, um livro aberto com faixas verde, laranja e amarela, e o nome da instituição em letras marrons. À direita, quatro pessoas estão sentadas em cadeiras sobre um tapete listrado, todas voltadas para o orador e sorrindo: uma pessoa de cabelo curto e roupa branca, uma mulher de macacão azul com o cabelo preso no alto, um homem de óculos e terno escuro com os braços cruzados e uma mulher de vestido azul-escuro. Uma cadeira amarela vazia fica entre elas. No primeiro plano, à direita, parte da plateia aparece de costas, e uma mulher ergue o celular para registrar o momento.
Promovido pelo Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, o evento contou com a presença do secretário da Cultura André Kryszczun - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac
Por ASCOM BPE / EDIÇÃO: ASCOM SEDAC

O fortalecimento das bibliotecas públicas e comunitárias, a formação continuada de profissionais, os investimentos no setor e a construção de políticas públicas para o livro e a leitura foram os principais temas do 3º Encontro Anual das Bibliotecas Públicas e Comunitárias do Rio Grande do Sul, promovido pela Secretaria da Cultura (Sedac), por meio do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do RS (SEBP), entre os dias 3 e 5 de novembro, no Espaço Força e Luz e na Associação Comercial, em Porto Alegre. Realizado desde 2024, o evento tem como objetivo atualizar bibliotecários e gestores de bibliotecas do Estado, além de proporcionar espaços de diálogo, articulação e troca de experiências entre as instituições que integram essa rede.

Nesta edição, a programação reuniu painéis, palestras, oficinas, conversas com escritores e atividades culturais, abordando desde a gestão e a conservação de acervos até a acessibilidade, a biblioterapia, a tecnologia e os mecanismos de financiamento para as bibliotecas.

Entre as autoridades que participaram do encontro estão o secretário da Cultura, André Kryszun; a diretora-geral do Instituto Banrisul Cultural, Beatriz Araujo; o diretor do Departamento do Livro, Leitura e Literatura do Ministério da Cultura (MinC), Jefferson Assumpção; e a diretora administrativa do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS), Luciana de Oliveira.

Em sua manifestação durante a cerimônia de abertura, o secretário destacou os investimentos realizados pelo governo do Estado na cultura e a compreensão do setor como parte das estratégias de desenvolvimento econômico e social. Ressaltou o fortalecimento institucional promovido na área do livro, leitura e literatura, com investimentos na estrutura do SEBP, na restauração da Biblioteca Pública do Estado (BPE), no apoio a bibliotecas de bairro e na recuperação de instituições atingidas pelas enchentes.

O chefe da pasta também enfatizou a importância desses investimentos para que as bibliotecas possam ampliar seus serviços, orientar leitores e contribuir diariamente com a sociedade.

Dados, investimentos e fortalecimento das bibliotecas

No primeiro dia (3/11) de evento, a agenda contou com uma apresentação da diretora do Departamento do Livro, Leitura e Literatura (DLL) da Sedac, Ana Maria de Souza, que também é diretora da BPE e coordenadora do SEBP. Ela exibiu um levantamento estatístico referente a 2025. A apresentação frisou a necessidade de registrar e sistematizar dados sobre o funcionamento das bibliotecas, seus serviços e o atendimento ao público.

Segundo Ana Maria, os indicadores permitem demonstrar a dimensão do trabalho realizado pelas instituições e constituem instrumentos fundamentais para buscar apoios, patrocínios e investimentos. O levantamento também funciona como um diagnóstico da rede estadual, orientando ações, investimentos e políticas públicas.

Fotografia horizontal de uma palestra no 3º Encontro Anual das Bibliotecas Públicas e Comunitárias do RS, em um palco escuro. Uma mulher de cabelo preso, casaco cinza-claro sobre camiseta azul-escura e calça jeans fala ao microfone, que segura com uma das mãos, enquanto levanta a outra no ar, em gesto expressivo. Atrás dela, um grande telão projeta um slide de fundo escuro com o título “Quatro pontos que preparam a biblioteca para as oportunidades de captação de recursos”, em letras brancas e verde-limão. Abaixo do título, quatro quadros arredondados trazem ícones e textos em verde-limão e branco: “Planejamento”, ilustrado por uma prancheta com lista de tarefas e orientado a definir prioridades e buscar recursos de forma estratégica; “Documentação”, com folhas sobrepostas, sobre manter em dia os documentos exigidos nos editais; “Projeto”, com três figuras humanas, sobre transformar as necessidades da biblioteca em uma proposta clara e viável; e “Parcerias”, com um aperto de mãos, sobre buscar e formalizar parcerias com instituições e organizações. Em primeiro plano, aparecem pedestais de microfone e cadeiras laranja vazias.
Diretora do DLLL, Ana Maria de Souza apresentou a necessidade de sistematizar as informações de bibliotecas e serviços - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac
Na sequência, Benhur Bortolotto, representante do Instituto Banrisul Cultural, apresentou o projeto de investimentos da instituição, que destinou R$ 10 milhões ao fortalecimento das bibliotecas públicas gaúchas. A iniciativa está estruturada em três eixos: apoio a bibliotecas históricas, entre elas a BPE, a Biblioteca Pública de Rio Grande e a Biblioteca Pública de Pelotas; atendimento a bibliotecas atingidas pelas enchentes, que apresentavam condições de receber acervos e mobiliário; e reconhecimento de instituições que se destacam no atendimento ao público, na mediação e na formação de leitores.

Ao todo, 30 bibliotecas foram selecionadas para receber acervos e mobiliário. O projeto também conta com uma parceria técnica com o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS), visando fortalecer as instituições de leitura e cultura. Durante a apresentação, Bortolotto anunciou que um novo edital será lançado em 2027, contemplando outras 16 bibliotecas do Estado.

Biblioterapia, acolhimento e formação de leitores

Ainda na terça-feira (3), as possibilidades da biblioterapia nas bibliotecas foram abordadas pela biblioterapeuta Crizângela Amaral e pelo coordenador do Sistema de Bibliotecas Públicas de Santa Catarina, Evandro Duarte. A apresentação percorreu conceitos e práticas da biblioterapia ao longo dos séculos e chegou às possibilidades contemporâneas de utilização da leitura como instrumento de cuidado, autoconhecimento e desenvolvimento humano.

Fotografia horizontal de um palco escuro durante o 3º Encontro Anual das Bibliotecas Públicas e Comunitárias do RS. No lado direito, uma mulher de cabelo ruivo e comprido, com blazer marrom e sandálias de salto plataforma, está sentada e sorri enquanto fala ao microfone, que segura com uma das mãos. Ao lado dela, um homem de cabelo escuro, barba, óculos e camisa polo preta, sentado de pernas cruzadas e visto em parte de costas, olha para ela com atenção. Atrás deles, um grande telão projeta um slide de fundo em degradê verde-claro e lilás, com molduras ornamentadas em marrom e a imagem de livros antigos abertos. No centro, em letras marrons, lê-se “Que a biblioteca encontre a vida de alguém”, seguido de “Por Criz Amaral”. À esquerda, a silhueta de uma pessoa aparece quase totalmente escura.
Crizângela e Evandro abordaram a biblioterapia, que utiliza a leitura como ferramenta para o cuidado e o desenvolvimento humano - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac
A prática envolve leitura e interpretação de textos para estimular a autopercepção, a empatia, a compreensão e a expressão das emoções, a imaginação e o diálogo. Também contribui para o desenvolvimento do pensamento crítico e para o exercício da cidadania.

Crizângela enfatizou a dimensão afetiva da mediação de leitura e a importância da escuta, lembrando que a biblioteca pode ser um espaço de encontro entre a literatura e as experiências de vida de cada pessoa. A biblioterapia, nessa perspectiva, foi apresentada como uma mediação afetuosa por meio da literatura, capaz de acolher histórias, promover vínculos e aproximar pessoas.

Literatura, memória e identidade

A programação do primeiro dia também contou com uma conversa com o escritor Cláudio Levitan, que compartilhou aspectos de sua trajetória literária e de seu processo criativo. Em um depoimento pessoal, falou sobre a influência dos afetos familiares, das experiências de vida e da relação com as bibliotecas em sua formação e produção literária.

Advocacy, escuta e inteligência artificial

Na quarta-feira (4/11), o bibliotecário Leonardo de Assis apresentou a palestra “Do funcionamento à visibilidade: advocacy na prática”. A partir da pergunta “Que biblioteca podemos fazer hoje?”, propôs uma reflexão sobre a identidade dos profissionais, as motivações para trabalhar na área e o compromisso com o caráter transformador das bibliotecas.

O palestrante destacou que receber, escutar, aproximar pessoas e organizar informações são ações essenciais para o trabalho bibliotecário. Também ressaltou que a escuta e a atuação coletiva são fundamentais para o fortalecimento institucional e para consolidar a biblioteca como espaço de convivência e discussão democrática.

Outro tema abordado foi o uso da inteligência artificial no cotidiano das instituições. Para Assis, as novas tecnologias podem contribuir para ampliar a comunicação, organizar demandas e desenvolver ferramentas que auxiliem os profissionais, desde que utilizadas com critérios humanos e democráticos. A tecnologia deve estar a serviço da missão das bibliotecas de garantir acesso à cultura e promover transformação social.

O escritor Alcides Cheuiche encerrou a programação da manhã com uma conversa sobre sua trajetória e a presença das bibliotecas em sua vida. O autor abordou o processo de criação de suas obras, marcadas pela pesquisa histórica e pela construção de narrativas do gênero romance histórico. O escritor enfatizou a importância da literatura fundamentada em pesquisas e fatos históricos como forma de preservar a memória e contribuir para a compreensão da identidade de um povo.

Acessibilidade e experiência estética

A especialista em acessibilidade cultural Marina Baffini apresentou o projeto de acessibilidade da BPE, abordando a necessidade de proporcionar experiências estéticas, além de informações, às pessoas com deficiência visual e outras.

Para ela, a acessibilidade não deve se limitar à transmissão de informações sobre uma obra, mas possibilitar que cada pessoa desenvolva sua própria experiência de fruição artística. Entre os recursos apresentados estão as representações táteis, que permitem traduzir imagens em elementos tridimensionais e possibilitam que pessoas cegas construam a percepção de uma imagem a partir de suas partes até compreenderem o conjunto.

Marina também falou sobre as diferentes necessidades de acessibilidade, como o uso de contrastes adequados para pessoas com baixa visão e recursos que possam beneficiar pessoas com deficiência intelectual, neurodivergentes e pessoas com dificuldades de audição. “A Biblioteca Pública do Estado é, atualmente, a biblioteca com mais recursos acessíveis do Brasil e uma das poucas do mundo”, afirma.

Projetos, tecnologia e captação de recursos

No último dia do encontro (5/11), a diretora Ana Maria de Souza abriu a programação com a palestra sobre editais e projetos, abordando os caminhos para captar recursos destinados à melhoria da estrutura física, do mobiliário, dos acervos e ao desenvolvimento de projetos de incentivo à leitura.

A apresentação abordou quatro elementos fundamentais para preparar as bibliotecas para oportunidades de financiamento: planejamento, documentação, projeto e parcerias. Ana Maria reforçou a importância de manter a documentação institucional atualizada, estabelecer parcerias, acompanhar os editais disponíveis e analisar seus requisitos para adequar as propostas às necessidades de cada instituição.

Na sequência, o bibliotecário e cientista de dados Sebastião Lima Filho apresentou o sistema Koha, ferramenta gratuita de gerenciamento de bibliotecas que permite organizar acervos, catalogação, circulação de materiais, aquisições e relatórios. A apresentação abordou funcionalidades, instalação e armazenamento de dados, destacando as possibilidades de utilização por bibliotecas de diferentes portes.

Fotografia vertical de um homem em pé no palco do 3º Encontro Anual das Bibliotecas Públicas e Comunitárias do RS, falando ao microfone e gesticulando com a mão livre. Ele tem cabelo curto e grisalho, usa óculos, blusa de manga comprida em tom de ferrugem, calça escura e sapatos pretos. Atrás dele, um grande telão projeta um slide de fundo roxo-acinzentado com o título “KOHA” em letras grandes e claras, seguido de “Bibliotecas conectadas, pessoas protagonistas” e da frase “Da grande à pequena biblioteca, todos se conhecem e se conectam com o Koha”. Na parte inferior do slide, lê-se “A experiência da BDB”. Ao fundo e nas laterais, veem-se duas cadeiras laranja vazias, dois pedestais de microfone e um tapete listrado sobre o piso de madeira.
“O bibliotecário de hoje é um cientista de dados. O Koha é um gerador de dados e as IAs se alimentam disso", afirma Sebastião - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac
O palestrante chamou atenção para o lugar das equipes na manutenção e no funcionamento dos sistemas de informação, ressaltando que a qualidade dos dados depende do envolvimento dos profissionais. Em sua fala, sintetizou: “O bibliotecário de hoje é um cientista de dados. O Koha é um gerador de dados e as IAs [inteligências artificiais] se alimentam disso”.

A reflexão evidenciou o valor estratégico da informação na era da inteligência artificial e a necessidade de motivar as equipes, estimular a participação e reconhecer a contribuição de cada profissional para o funcionamento das bibliotecas. “Hoje, o ouro, o petróleo, são os dados. Na era da IA, quem tem informações registradas tem o poder”, concluiu.

A cadeia produtiva do livro e as políticas públicas

A programação do Encontro Anual das Bibliotecas Públicas e Comunitárias do RS também contou com a participação das escritoras Fernanda Mentz Scherer e Paula Teitelbaum, da editora Piu, em uma conversa sobre produção editorial, literatura para as infâncias e a cadeia produtiva do livro.

Fernanda destacou a relevância das políticas públicas para a existência e a sustentabilidade de iniciativas editoriais independentes. “A editora Piu só existe por políticas públicas”, afirmou, ressaltando que mecanismos de financiamento e incentivo são fundamentais para viabilizar a produção editorial e fazer com que os livros cheguem às bibliotecas e aos leitores.

Paula Teitelbaum complementou a discussão frisando que a produção de um livro envolve diferentes profissionais e etapas, desde a escrita e a edição até a ilustração, impressão, transporte, distribuição e comercialização. Nesse contexto, os editais e as políticas públicas de incentivo à leitura e à literatura são essenciais para sustentar essa cadeia, remunerar os profissionais envolvidos e ampliar a circulação das obras.

Oficinas e encerramento cultural

Além das palestras e bate-papos, os três dias de evento contemplaram oficinas sobre emergências, salvaguarda e conservação de acervos; política de desenvolvimento de coleções; e bibliotecas e educação patrimonial, com atividades conduzidas por Simone Steigleder, Marcela Neves Kröeff, Everton Quevedo e Luciana de Oliveira.

A programação foi encerrada com uma apresentação surpresa em formato de pocket show do grupo Os Fagundes, que levou ao público clássicos da música gaúcha, celebrando a identidade cultural do estado.

O 3º Encontro Anual das Bibliotecas Públicas e Comunitárias do RS reafirmou a importância da formação permanente dos profissionais, da articulação entre instituições e do investimento público e privado para fortalecer a rede de bibliotecas. As discussões evidenciaram que essas instituições são espaços fundamentais de acesso à informação, à literatura, à cultura e à cidadania, e que seu desenvolvimento depende de planejamento, cooperação e políticas públicas continuadas.

O evento teve apoio da Fundação Instituto Cultural e do Instituto Histórico e Geográfico.

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