Série de reportagens “2 anos pós-enchente: a reconstrução da cultura” mapeia transformação das instituições da Sedac
CCMQ abre especial com detalhes das ações realizadas, revelando uma Casa mais acessível e acolhedora
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Dois anos depois da maior tragédia climática do Rio Grande do Sul, a Secretaria da Cultura (Sedac) dá início à série de reportagens “2 anos pós-enchente: a reconstrução da cultura”, com o objetivo de divulgar as ações de recuperação e as melhorias pelas quais passaram suas instituições impactadas pela cheia. A primeira edição destaca a Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), no Centro Histórico de Porto Alegre, um dos primeiros espaços a abrir ao público depois de ter o térreo invadido pela água. O investimento do governo do Estado na instituição soma mais de R$ 10,2 milhões, grande parte doação do Banrisul e do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs).
Quem passa pela CCMQ ainda percebe as marcas da enchente de 2024. Uma placa instalada na fachada do prédio indica a altura que a água alcançou. A maquete, na recepção, e as paredes externas do prédio não nos deixam esquecer os dias que sucederam aquele 2 de maio. Nos espaços internos, muitas obras já finalizaram, outras ainda estão em execução. De acordo com o diretor de Memória e Patrimônio da Sedac, Eduardo Hahn, a Casa encontra-se em melhores condições do que no período anterior à enchente. “Ainda há muito o que fazer, mas o grande volume de chuva oportunizou que problemas que passavam despercebidos ficassem evidentes e pudessem ser resolvidos”, relata.
Entre as etapas da obra finalizadas ainda em 2024 estão as ações emergenciais de recuperação física, no valor de R$ 2,6 milhões - recurso doado pelo Banrisul para a Associação dos Amigos da Casa de Cultura Mario Quintana (AACCMQ). Nesta fase, foram restaurados os espaços mais deteriorados no pavimento térreo: recuperação de rebocos, pintura interna e externa, pisos internos e externos, esquadrias de madeira e restabelecimento das instalações da edificação com segurança (sistema de entrada de energia, rede elétrica, hidrossanitária, lógica, câmeras, elevadores e mota carga). Os trabalhos também envolveram a recuperação da Cinemateca Paulo Amorim, com higienização completa das salas, substituição das poltronas, carpetes, estruturas de palco, cortinas, sistemas de projeção e som, sistema de climatização e totens de sinalização.
No mês de maio deste ano foi concluída a restauração do Teatro Bruno Kiefer, no 6º andar da CCMQ. O investimento total no espaço foi de R$ 3,2 milhões, com recursos da Lei de Incentivo à Cultura (LIC) e do Funrigs.
Pinturas murais
As obras de restauração das pinturas murais e dos forros do hall leste e oeste da instituição também foram finalizadas em maio. O hall leste recebeu novas pinturas e no oeste ocorreu o restauro das pinturas descobertas durante a limpeza pós-enchente. O serviço contemplou o descascamento das camadas de tinta sobrepostas, limpeza da pintura original, nivelamento das lacunas e reintegração pictórica. As melhorias estão orçadas em R$ 1,5 milhão, dos cofres da Sedac.
Impermeabilização e elétrica
Com previsão de conclusão no mês de julho estão o restauro, a conservação e a requalificação dos espaços em geral, como a impermeabilização das lajes de cobertura no terraço (7º andar) e do Jardim Lutzenberger (5º andar). E ainda: a impermeabilização de seis fossos de luz, revisão e correção de calhas, recuperação das coberturas de telhas de cerâmica, conserto e pintura de tetos, forros, vigas e lajes. Por fim, a revisão da rede elétrica e o aterramento elétrico nas salas dos teatros Bruno Kiefer e Carlos Carvalho, bem como do próprio Jardim Lutzenberger. O investimento da Secretaria nesta fase é de R$ 2,9 milhões.
Casa ainda mais acessível
Desde agosto de 2024, a CCMQ está em pleno funcionamento e com entregas importantes, como a programação especial de 35 anos da Casa, celebrados em setembro de 2025, a conclusão das obras de reforma do Teatro Bruno Kiefer e a programação em homenagem aos 120 anos de nascimento do poeta Mario Quintana, em 2026. Segundo a ex-diretora da CCMQ, Adriana Sperandir, todos os espaços foram preparados para oferecer o máximo de conforto e acessibilidade aos seus visitantes. As melhorias também ganharam um olhar atento no quesito prevenção.
“Não realizamos exposições com materiais de difícil remoção ou permanente nos andares de baixo. Os estofados da Cinemateca Paulo Amorim, um dos mais afetados durante a enchente, ganharam proteções ainda mais resistentes e até algumas opções móveis. Também estamos conscientes de que precisamos agir de maneira mais ágil e eficiente para não cometermos os mesmos erros, caso confirme as previsões meteorológicas de uma nova cheia”, detalha Adriana.
Portas fechadas durante 101 dias
A diretora da CCMQ na época da enchente, Germana Konrath, lembra que acompanhou de perto a subida do nível da água. “Moro no Centro Histórico, na Rua Duque de Caxias. Ficava todos os dias monitorando e vi a água chegar. Desespero e ao mesmo tempo uma melancolia de ver tudo silencioso e inundado. Devastador”, frisa.
Uma força-tarefa da Sedac tentou salvar o máximo possível do patrimônio, mas a prioridade era a segurança das pessoas. Germana explica que por mais que tentassem estabelecer protocolos, não havia um parâmetro a ser seguido. Todos estavam buscando entender o que estava ocorrendo. “Foram muitas perdas: saúde mental e física, porque as pessoas precisavam se arriscar para atravessar as águas e chegar até a Casa. Trabalho exaustivo para tentar reduzir ao máximo os prejuízos, tanto material quanto da classe artística que havia perdido trabalho”, relembra.
Depois de 20 dias fechada, começaram as primeiras ações de reconstrução da CCMQ. “Abrimos oficialmente após 101 dias, no dia 14 de agosto de 2024. Na época, batemos recorde de público. A Casa virou símbolo de retomada, ponto de encontro. Em novembro daquele ano, chegamos a receber 55 mil pessoas, quando a média era 30 mil”, conta.
Antecipar evacuação
Com previsões climáticas nada otimistas para 2026, o administrador da CCMQ, Marcos Pereira, enfatiza que a principal meta é sempre garantir que todas as pessoas fiquem em segurança. “Se der, tenta-se salvar o máximo possível do mobiliário, levando para andares superiores, mas a nossa vida está em primeiro lugar. Na última enchente, as pessoas demoraram para acreditar que o nível da água subiria tanto, talvez por isso algumas ações tenham demorado mais do que deveriam”, detalha.
Pereira recorda que quando a água chegou à Rua dos Andradas, a Sedac montou uma equipe de segurança para dar assistência às instituições. “Todos os esforços foram feitos, pois além das cheias havia a iminência de depredação do patrimônio público e arrombamentos, que exigiram trabalho redobrado de segurança”, ressalta.
Outro perigo era a rede elétrica, que precisou ser desligada às pressas quando o nível da água começou a subir. Na retomada, ela precisou ser repensada. As tomadas foram instaladas em nível mais alto, foram adquiridos geradores de luz e novos transformadores foram instalados. A ala leste também recebeu um gerador de grande porte.
Os dois anos de reconstrução foram marcados por resiliência, força e esperança. A supervisora das equipes educativas da Casa, Karol Brum, recorda essa mistura de sentimentos: “Lembro da sensação de quando voltei pela primeira vez após baixar a água, um alívio misturado com tristeza, mas com a certeza de que voltaríamos melhores, mais fortes”. E voltaram. E voltamos.
A CCMQ fica na Rua dos Andradas, 736, no Centro Histórico de Porto Alegre. O horário de funcionamento é de terça-feira a domingo, das 10h às 20h.




