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Exemplo de resiliência: como o Museu do Carvão resgatou e recuperou seu acervo de fotografias danificadas na enchente

Conjunto foi restaurado, conservado e digitalizado pelos especialistas da empresa Âmbar Cultural

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Em uma sala iluminada por uma grande janela com luz natural, duas pessoas utilizam máscaras, luvas e aventais protetores enquanto trabalham lado a lado em uma mesa longa. Sobre a mesa estão organizadas pilhas de documentos, fotografias antigas e instrumentos de trabalho, como uma régua e uma base de corte verde. Uma das pessoas manipula cuidadosamente um conjunto de papéis, enquanto a outra organiza materiais em caixas arquivadoras. Ao fundo, estantes metálicas com caixas etiquetadas e um armário reforçam o ambiente de arquivo e conservação, evidenciando um processo técnico de cuidado e preservação de acervo documental.
Fotografias da instituição guardam a memória da formação da Região Carbonífera do RS - Foto: Divulgação Museu Estadual do Carvão
Por ASCOM SEDAC

Em maio de 2024, o Museu Estadual do Carvão foi atingido pela enchente. Localizada em Arroio dos Ratos (RS), a instituição da Secretaria da Cultura (Sedac) é considerada um símbolo da Região Carbonífera, guardando a memória da mineração de carvão, de seus trabalhadores e de suas famílias. Em razão da inundação, milhares de documentos e fotografias ficaram submersos, exigindo um esforço coletivo de técnicos da Sedac e voluntários para resgatar centenas de caixas e maços de papéis que teriam sido perdidos caso permanecessem no local. 

Uma fotografia antiga em tom sépia é apresentada sobre uma superfície clara, com bordas visivelmente desgastadas e pequenas manchas distribuídas ao longo do papel. A imagem mostra um grande grupo de pessoas reunidas em frente a um edifício com janelas em arco e paredes claras. Parte do grupo está sentada em bancos e cadeiras, enquanto outras pessoas permanecem em pé atrás, formando uma composição organizada típica de retratos coletivos da época. As vestimentas são formais, incluindo paletós, coletes e chapéus, e há também um indivíduo posicionado à esquerda próximo à parede do prédio. Na parte inferior da fotografia, há uma inscrição manuscrita que faz referência à “1ª Turma da Escola de Engenharia” e menciona “Minas do Arroio dos Ratos” com a data de 1897. O conjunto apresenta sinais de envelhecimento, com áreas mais escuras e marcas que revelam o desgaste do material ao longo do tempo.
Detalhe de uma das fotografias restauradas do acervo do Museu do Carvão - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac

Ao longo de dois anos, o acervo com cerca de 1.400 fotografias foi tratado pela empresa Âmbar Cultural, do Rio de Janeiro, que restaurou, conservou e digitalizou o conjunto. O investimento da secretaria foi de R$ 273 mil, oriundos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs). Na sexta-feira (29/5), Sandra Baruki, Marcia Mello e Maria Julia Fróes, especialistas em conservação de fotografias da Âmbar, estiveram na Sedac, em Porto Alegre (RS), para apresentar o resultado. 

Em um ambiente interno com paredes neutras e iluminação suave, três pessoas estão sentadas em sofás dispostos em formato de “L”, conversando enquanto observam materiais sobre uma mesa de centro. Sobre a superfície estão várias fotografias antigas, algumas protegidas por folhas plásticas, além de pequenas imagens organizadas em cartelas e livros empilhados na parte inferior. As pessoas estão voltadas para a mesa e entre si, sugerindo um momento de análise e discussão do acervo. Ao fundo, duas fotografias em preto e branco emolduradas estão fixadas na parede, mostrando paisagens naturais com horizonte amplo. A composição destaca o contraste entre o ambiente contemporâneo e os documentos históricos espalhados sobre a mesa.
Marcia Mello, Maria Julia Fróes e Sandra Baruki durante visita à Secretaria da Cultura (Sedac) - Foto: Solange Brum/Ascom Sedac

O secretário da Cultura, André Kryszczun, elogiou o trabalho da equipe: “A restauração do acervo fotográfico do Museu do Carvão, patrimônio cultural e histórico importantíssimo da Região Carbonífera, demonstra como a cooperação entre diferentes setores da sociedade, baseada no conhecimento técnico, pode ajudar a enfrentar as dificuldades impostas pelas mudanças climáticas e por eventos meteorológicos extremos. Estamos orgulhosos deste resultado.”

Missão desafiadora

A recuperação das fotografias impactadas pela enchente demandou um trabalho minucioso de análise, uma por uma, para identificar os danos. Sandra recorda que foi necessário vir ao Rio Grande do Sul para fazer os primeiros testes e definir o tratamento adequado. “O compromisso ético e profissional definiu meu aceite, ciente da tragédia e da importância da participação. Participar do tratamento pós-resgate foi um compromisso de cidadania”, relatou. “Em mais de 30 anos de profissão como conservadora-restauradora de fotografia, destaco este trabalho como um dos mais relevantes na minha trajetória profissional, pelos resultados alcançados. A experiência foi singular e ajudará em futuras decisões”, comentou. 

A especialista recorda que as imagens estavam sujas com lama e contaminadas pela água. A solução foi levá-las para o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), autarquia da Universidade de São Paulo (USP), para que equipamentos de radiação ionizante pudessem matar microrganismos danosos.

Cuidado com a memória

Após a desinfecção em São Paulo (SP), as imagens foram transferidas para um ateliê de tratamento no Rio de Janeiro (RJ), onde uma equipe de profissionais aguardava para realizar a lavagem e remoção da sujeira, com reparos das dobras e rasgos. O tratamento de alguns itens foi mais delicado: fotografias do século 19 e início do século 20 continham albumina ou prata, elementos altamente afetados pela umidade. Ainda, grande parte estava com as embalagens originais de papel grudadas. Sem colocar o conteúdo em risco, elas foram novamente submersas em água para retirar o papel. Em seguida, secas e planificadas.

Para a especialista Maria Julia Fróes, o trabalho foi um sucesso. Segundo ela, acervos atingidos por desastres naturais tornaram-se uma realidade e é um dever enquanto profissional estar preparada para proteger e salvaguardar bens culturais diante das mudanças climáticas.

Maria também compartilha uma peculiaridade da conservação fotográfica: é uma profissão que lida com momentos históricos. “Ter a oportunidade de trabalhar com esse acervo foi um privilégio, principalmente ao percebermos que a comunidade está representada nele. Vemos jovens, crianças, idosos, peças de teatro, trabalhadores, visitas escolares e atividades promovidas por um Museu que se preocupa em preservar essas memórias tão preciosas”, afirmou.

Novos suportes físicos e virtuais

Após serem higienizadas, as imagens foram acondicionadas em pastas verticais, confeccionadas em material que evita reações químicas. Para garantir que as futuras gerações tenham acesso ao conteúdo, as fotografias foram digitalizadas em alta resolução e serão disponibilizadas em breve na plataforma Acervos da Cultura.

Um detalhe interessante é que algumas delas foram escaneadas ainda molhadas, com as embalagens grudadas. Conforme explica Mauro Domingues, preservador audiovisual e fotógrafo da Âmbar Cultural, o procedimento objetiva manter o equilíbrio das cores originais. Molhado, o papel da embalagem (que ficou impregnado com detalhes da imagem) fica translúcido e possibilita recuperar as informações.

“A fragilidade das fotografias atingidas por água e lama foi uma experiência nova no que diz respeito à etapa de digitalização. Foi preciso submergi-las em água e, com rígido controle, digitalizá-las ainda molhadas para eliminar a opacidade da embalagem e resgatar as informações contidas no original. Assim, foi possível recuperar um pouco da densidade, do equilíbrio dos tons e alguns detalhes”, completou.

Resiliência climática

Para a especialista Marcia Mello, os fragmentos de história salvos da enchente de 2024 servem de exemplo para os futuros desafios diante das mudanças climáticas. “Novos paradigmas estão sendo discutidos no círculo de especialistas. Temos que estar preparados para os novos desafios que virão e para salvar nossos patrimônios culturais”, contextualizou.

Com mais de quatro décadas dedicadas à fotografia, Marcia afirma que tratar o acervo do Museu do Carvão exigiu tranquilidade e coragem para tomar as decisões certas. “Restituir vida a esses documentos históricos tão importantes para todos os gaúchos foi uma experiência única e ficará para sempre como um dos maiores desafios que enfrentei na minha já longeva carreira. Com o apoio da Secretaria da Cultura e da equipe do Museu, deixamos um importante legado para as novas gerações”, finalizou.

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